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  Última atualização   21 de julho de 2018 | 08:49:49
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Empreendimentos ligados a seita são investigados por trabalho escravo


Incluída em: 08/02/2018 | 07:08


Policiais federais e auditores-fiscais do trabalho continuam fiscalizando propriedades rurais e estabelecimentos comercias ligados à Igreja Cristã Traduzindo o Verbo. Antes conhecida como Comunidade Evangélica Jesus - a Verdade que Marca, a igreja é acusada de aliciar fiéis para trabalhar em condições semelhantes à escravidão em várias localidades.

Deflagrada na terça-feira (6), a Operação Canaã – A Colheita Final é um desdobramento das investigações iniciadas em 2013, e acontece, simultaneamente, em Minas Gerais, São Paulo e Bahia, onde a Justiça autorizou o cumprimento de 22 mandatos de prisão preventiva, 17 de interdição de estabelecimentos comerciais e 42 de busca e apreensão. Até a manhã de hoje (7), 13 pessoas já tinham sido presas. Entre os empreendimentos fiscalizados, um restaurante de luxo na cidade de Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, foi interditado.

“Os empreendimentos autuados pertencem a uma rede constituída sob influência da seita religiosa comandada pelo pastor Cícero Araújo”, informou hoje (7), à Agência Brasil, o auditor-fiscal do Trabalho e coordenador do projeto de combate ao trabalho escravo em Minas Gerais, Marcelo Gonçalves Campos. O pastor é um dos líderes da Traduzindo o Verbo, contra quem foi expedido mandado de prisão preventiva, mas, até o começo da tarde, não tinha sido localizado.

Segundo Campos, centenas de pessoas já foram encontradas em condições que, pelos critérios legais, os auditores-fiscais entendem constituir trabalho degradante. As ações de fiscalização estão acontecendo em fazendas, postos de gasolina, restaurantes, fábrica de confecções e outros empreendimentos comerciais de pelo menos 14 cidades mineiras (Contagem, Betim, Andrelândia, Minduri, Madre de Deus, São Vicente de Minas, Pouso Alegre e Poços de Caldas), baianas (Ibotirama, Luiz Eduardo Magalhães, Wanderley e Barra) e paulistas (São Paulo).

“As pessoas foram encontradas em condições análogas ao trabalho escravo porque não têm nenhum direito laboral. Algumas constam como sendo sócias de alguns empreendimentos econômicos urbanos, mas se trata de uma sociedade fraudulenta, pois elas não recebem nada por isso”, disse Campos. “Já no meio rural, algumas dessas pessoas figuram como proprietários rurais independentes, o que também é uma falsidade para encobrir a condição de submissão, já que elas trabalham sob a coordenação de algum responsável e não recebem salários ou qualquer direito trabalhista.”

Na terça-feira (6), o Ministério do Trabalho e Emprego divulgou nota em que afirmava que o número de resgatados poderá chegar a 900 pessoas. Campos, no entanto, preferiu não precisar um número. “A ação está em curso e ainda não temos certeza do número de vítimas, mas é bastante provável chegarmos a um número próximo a esse”, disse o coordenador, lembrando que, em 2013, quando a seita começou a ser investigada, 348 trabalhadores foram libertados e uma ação civil pública foi proposta pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e uma ação penal pelo Ministério Público Federal (MPF).

Evidências

Apesar das “fortes evidências” de que frequentadores da igreja, em situação de vulnerabilidade social, são recrutados, principalmente na cidade de São Paulo, para deixar suas vidas para trás e passar a trabalhar em lavouras e estabelecimentos comerciais ligados à igreja, sem salários, descanso ou qualquer outro benefício trabalhista, os auditores-fiscais estão encontrando dificuldades para obter depoimentos das próprias pessoas encontradas nos locais fiscalizados.

“Há, sobre as vítimas, um forte domínio ideológico e religioso exercido por quem as está explorando, que lhes prometia uma vida comunitária em um paraíso na terra. Das centenas de vítimas que estamos encontrando, todas que entrevistamos até o momento dizem estar no melhor dos mundos, no paraíso, negando ter vínculos com a seita. Para nós, este vínculo está claro e vamos procurar saber se estas pessoas foram orientadas a responder desta forma”, disse o coordenador do projeto, explicando que, via de regra, as pessoas encontradas nos estabelecimentos fiscalizados imaginam trabalhar para constituir um patrimônio coletivo, de todo o grupo de fiéis.

“A realidade é que isto é uma mensagem falsa, transmitida pelo comando do esquema. A documentação já apreendida e as investigações demonstram que, além de não receber nada individualmente, a riqueza fruto do trabalho dessas pessoas está sendo concentrada pelas entidades privadas”, disse Campos, frisando que as investigações policiais que resultaram na deflagração dessa terceira fase da operação apontam que, em vez de interromper suas atividades após ter sido flagrada em 2013, a igreja do pastor Cícero Araújo ampliou suas ações para Minas Gerais e já ensaiava começar a atuar no Tocantins.

A reportagem tentou fazer contato com os representantes legais da Igreja Cristã Traduzindo o Verbo por meio de vários telefones divulgados na internet, mas não foi atendida em nenhum deles.

Agência Brasil

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